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sábado, 4 de dezembro de 2010

Nos EUA, Bancos Pequenos Melhoram, Putrefação dos Zumbis “Too Big to Fail” Continua

The Institutional Risk Analyst
2 de dezembro de 2010

Postado por Marco Aurélio

Institutional Risk Analytics (IRA) participou do programa, no canal MSNBC, do nosso amigo Dylan Ratigan, um dos poucos profissionais da Grande Mídia que tem a coragem de tirar as conclusões óbvias sobre o atual mal-estar político-econômico dos EUA. Resumo: não haverá recuperação da oferta de crédito ou de empregos na economia dos EUA até que o Obama reestruture os maiores bancos. Talvez se o Obama passasse mais tempo fazendo o seu trabalho e menos tempo jogando basquete, obteríamos alguns resultados.

No início desta semana, estivemos no estado de Indiana, para uma palestra-almoço promovida pelo Networks Financial Institute na Indiana State University. O nome da palestra foi: "A América Precisa de um New Deal?" A platéia de banqueiros e empresários locais tinha duas questões prinicpais em mente: o crescimento econômico e o emprego. Após a palestra, recebemos esta nota de agradecimento de uma participante:
Não desistam. Não parem. Continuem a bater neles. Nós aqui nas cidades comuns dos EUA estamos ouvindo, observando e esperando que todo o edifício desabe numa nuvem de pó, para que possamos tirar o governo e a oligarquia financeira das nossas costas e começar a reconstruir a América real.
Depois do evento em Evansville, voltamos para Indianápolis e paramos para almoçar em um restaurante italiano perto da cidade de Terre Haute. Na parte de trás da sala de jantar havia uma grande mesa, com uma dúzia de senhoras almoçando. Eram as senhora do Red Hat Society. Apesar do entusiasmo da Grande Mídia em tecer comentários de um otimismo nebuloso e realismo duvidoso no ar rarefeito da crise que se alonga e agrava, é bom saber que, em alguns lugares na América pelo menos, as pessoas ainda estão tentando viver vidas normais.

Também recebemos uma nota de um leitor do The IRA, que gentilmente enviou o depoimento de ontem pelo vice-presidente do Freddie Mac, Donald Bisenius, sobre o custo nos atrasos nos processos de arrestos de imóveis (foreclosure). Seus comentários contradizem diretamente as declarações anteriores de executivos de vários dos maiores bancos dos EUA sobre o custo crescente de processamento.
... A cada dia, a cada mês que esperamos para começar os processos de arresto (suspensos após a descoberta de fraudes generalizadas), os custos do processo de arresto se acumulam. Um rápido cálculo matemático, como sugeri no meu testemunho por escrito aos tribunais, indica que são de USD 30 a USD 40 por dia. Se temos 300 mil empréstimos em processo de arresto, isso pode começar a representar centenas de milhões de dólares por mês com esses atrasos. Temos que encontrar uma maneira de acabar com a confusão. Sei que o arresto é um processo doloroso e confuso.
Vale a pena notar que esta afirmação de Bisenius contradiz o que foi dito na teleconferência do terceiro trimestre por Brian Moynihan, CEO do Bank of America Corporation (BAC):
Em termos de custos reais para a nossa empresa, no ramo das hipotecas, passamos de cerca de 30.000 pessoas para 50.000 pessoas. A parte de arresto é, na verdade, uma pequena parte desse negócio. O trabalho que antecede o arresto, as coletas e os esforços de modificação dos termos da hipoteca, é aí que entra a maior parte do trabalho. São, então, USD 10 milhões, USD 20 milhões por mês, durante alguns meses, ou vários meses. Por isso não é tão importante. O custo no negócio hipotecário, e uma das razões por trás dos nossos gastos, especialmente para quem vê de fora – bem, muita gente se pergunta por que as despesas nesses processos de arresto não são mais altas. É que continuamos a estruturar equipes para fazer as modificações nos termos do contrato e a cobrar o crédito inadimplente, trabalhando com os devedores, com os clientes, para ajudá-los a evitar o arresto de suas casas e, em último caso, se necessário, fazer o arresto. Mas o custo real do processo – em particular, de refazer 100.000 declarações juramentadas que estavam erradas, para acertar o processo – tem sido modesto no contexto do grande número de pessoas trabalhando nele.
Ratings de Bancos no Terceiro Trimestre de 2010: Bancos Pequenos Melhoram, Putrefação dos Zumbis “Too Big to Fail” Continua
Os dados do 3T 2010 do FDIC estão atualizados nas versões profissional e para consumidor do The IRA Bank Monitor. A última matriz de classificação com a distribuição do setor bancário por unidades e ativos totais está disponível em nosso site. Você pode adquirir uma assinatura anual para os perfis de bancos individuais do The IRA Bank Monitor para qualquer empresa detentora de depósitos, ou holding bancária, segurada pelo FDIC. É só ir ao site para consumidores do IRA (www.irabankratings.com).

O ponto-chave a ser lembrado é a volatilidade continuada nas demonstrações financeiras bancárias, como demonstrado pelo movimento entre os diferentes estratos de classificação (different ratings strata). Esse tipo de volatilidade é normal no desempenho tanto de bancos quanto de não-bancos, mas o atual período de estresse operacional e de crédito está aumentando essas distorções. Quando você vê esse tipo de instabilidade na divulgação financeira dos bancos, isso sugere fortemente que os bancos estão sob severo estresse operacional.

Observem que há agora 1.600 bancos com avaliações "F" (no 3T 2010), ou aproximadamente o dobro do número de bancos agora na lista de bancos-problemas do FDIC. Mas note também que o número de bancos avaliados com "C" e "D" tem diminuído. Isso ocorre à medida que os bancos bons continuam a receber melhores avaliações. Esse fato parece confirmar nossa opinião de que os bancos menores, que são melhor-administrados, estão melhorando lentamente, enquanto as instituições problemáticas continuam a sofrer.

Observem também que a banda de avaliações "B" e "C" contém a maior parte dos ativos totais, USD 4,9 e USD 1,7 trilhões, respectivamente. Essas categorias de ratings contêm os quatro principais bancos-zumbis: BAC (BAC/Q3 2010 Stress Rating: "C"), JPMorgan Chase (JPM/Q3 2010 Stress Rating: "C"), Wells Fargo (WFC/Q3 2010 Stress Rating: "B") and Citigroup (C/Q3 2010 Stress Rating: "C"). Assim, a boa notícia é que os bancos menores estão melhorando, mas os bancos maiores, que representam mais da metade dos ativos do ramo, devem permanecer sob uma nuvem, devido a problemas antigos.

À medida que as instituições menores no ramo melhoram lentamente, prevemos que os ratings para essas instituições maiores continuarão a cair, à medida que o stress operacional ilustrado pelos parágrafos acima ficar mais agudo. Continuamos a acreditar que o BAC terá de ser reestruturado pelo FDIC usando os poderes da Lei Dodd Frank, mas talvez não antes da administração do banco decidir tentar a sorte com um pedido de falência da Countrywide, uma de suas unidades.

Em tempo: quem disse que os problemas do setor bancário na UE são piores do que aqueles dos EUA? Fiquem atentos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

À Beira de um Novo Começo para o Sistema Financeiro

Christopher Whalen
Co-fundador da Institutional Risk Analytics, empresa de Los Angeles que fornece ferramentas de gestão de risco e serviços de consultoria para auditores, reguladores e profissionais da área financeira.


Postado por Marco Aurélio

Durante os últimos anos, os governos ao redor do mundo têm tentado evitar lidar com o problema do endividamento excessivo, mesmo à medida que as receitas vêm encolhendo e a atividade econômica vem caindo. A estratégia principal dos governos tem sido emprestar tanto a sua nota de crédito (credit rating) quanto fundos para ajudar os bancos e entidades do setor público a disfarçarem o problema, na esperança de que uma onda crescente de atividade econômica levante todos os barcos.

Infelizmente, os esforços do Fed e de outras autoridades monetárias para "reaquecer" os preços dos ativos e aumentar a velocidade do dinheiro fracassaram. A razão é bastante simples – quando os países atingem um certo nível de endividamento, cada aumento marginal na dívida total e / ou na oferta de moeda fiduciária tem um impacto cada vez menor. Nos EUA, por exemplo, a velocidade ou giro no estoque de dinheiro tem caído porque o livre fluxo de crédito e a atividade econômica correlata desapareceram.

O principal resultado da abordagem, adotada pelos líderes das nações do G-20, de adiar a crise tem sido a postergação de uma dia de penitência necessária e a corrosão da qualidade do crédito soberano dos países membros. Primeiro foi a Grécia, depois, a Irlanda e, em seguida, provavelmente será a vez da Espanha de reconhecer terem ficado insolventes devido aos esforços empreendidos para amparar bancos comerciais igualmente falidos.

Mas agora, com os cidadãos de estados soberanos, da Alemanha à Califórnia, rejeitando a ajuda (bailouts) e cortes nos serviços públicos, o dia de julgamento e penitência está chegando para bancos e credores. É aí que reside o caminho que permitirá deixar para trás o desespero e seguir rumo a uma renovação nacional.

Se você considerar que o preço médio de uma casa nos EUA caiu mais de 25% a partir do pico do boom imobiliário, o fato de que nossas maiores instituições financeiras estão insolventes não é grande surpresa. De fato, uma das razões pelas quais tenho sido tão pessimista sobre a situação dos maiores bancos é que algo como a metade de seus bens está vinculada à moradia. Esse montante é ainda maior se forem incluídos os empréstimos vendidos aos investidores.

O Fed vem tentando reverter essa grande queda nos valores dos ativos com uma variedade de artifícios, mas, infelizmente os tribunais (N. do T. - os tribunais americanos estão analisando acusações de fraude contra grandes bancos, relacionadas a imóveis) abrem todos os dias. Mesmo à medida que o Fed usa a flexibilização quantitativa (quantitative easing) para manter, no nível macro, o mercado de ações a um nível artificial, o processo de liquidação e cancelamento de dívida está lentamente minando o capital dos maiores bancos.

De maneira semelhante, conforme escrevi em um artigo anterior da Reuters.com, "a charada do Bernanke é o problema do Obama" – a insolvência financeira faz com que os maiores bancos americanos não se disponham a refinanciar imóveis, acrescentando ainda mais pressão deflacionária e frustrando os esforços do Fed para aumentar a velocidade do dinheiro na economia dos EUA.

No início deste mês, o Ambac Financial Group, uma das prinicpais seguradoras de títulos municipais, foi forçado a declarar falência por causa das exigências de detentores de títulos hipotecários securitizados (residential mortgage backed securities - RMBS). Essas exigências estavam corroendo o capital da Ambac. A resposta do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, tem sido tentar encobrir a situação e, mais uma vez, salvar (bail out) os maiores bancos dos EUA e da Europa. Os titulares de RMBS com garantias Ambac poderão nada receber se o secretário Geithner ganhar (ver "Ambac, CDS and Geithner: It’s AIG All Over Again,” The Institutional Risk Analyst, November 16, 2010).

O que deve ser feito, então? A primeira coisa que os americanos precisam fazer é aceitar que os preços dos imóveis, bem como o PIB, a velocidade e outros indicadores, não vão voltar aos níveis pré-crise por muitos anos. Quando aceitarmos essa realidade, então a reestruturação e a recapitalização passarão a ser a escolha óbvia, embora dolorosa. Quando faço apresentações sobre o setor bancário, digo à platéia que a tarefa é como cortar alguns dedos com uma faca de cozinha. A má notícia é que vai doer pra burro. A boa notícia é que os dedos, eventualmente, voltarão a crescer.

A administração Obama precisa mudar de rumo e abraçar a reestruturação e a renovação nacional, em vez da atual política de prolongar e fingir (extend and pretend). Os mesmos fatores que levaram a Ambac à falência estão agindo sobre o Bank of America, Wells Fargo e JP MorganChase, e acabarão por forçar uma reestruturação. Quanto mais cedo o processo for iniciado, mais cedo a economia dos EUA vai se recuperar.

Na verdade, espero que a administração Obama irá, eventualmente, relutantemente, ser forçada a invocar os poderes concedidos pela lei Dodd- Frank e reestruturar os três principais bancos dos EUA. Essa ação vai representar uma perda quase total para os acionistas e uma perda parcial para os credores, mas o resultado final será um banco solvente que é menor, mais rentável e capaz de emprestar novamente.

É importante para os americanos lembrar que a falência e liquidação são passos necessários para a renovação nacional e a estabilidade econômica. Os Fundadores dos Estados Unidos (Jefferson, Madison, Burr, Washington et alii) incorporaram a idéia de falência à Constituição dos EUA justamente por esse motivo. Sabiam que a incerteza prolongada e a ausência de um fecho, quando se trata de insolvência, eram ruins para a sociedade. Assim, mandaram que o Congresso criasse tribunais federais de falência.

Tendo passado por uma reestruturação pessoal, há uma década – o resultado final de cinco anos de litígio civil-, não recomendo de forma leviana que se abrace a reestruturação. Mas a reestruturação e liquidação de dívidas me permitiram reconstruir minha vida. Cada vez que uma família perde uma casa para o arresto (foreclosure), essa tragédia cria uma oportunidade para outra família tentar um novo começo. Quando um banco é reestruturado, os credores perdem dinheiro, mas o banco é, então, capaz de contribuir para o crescimento econômico. E quando uma pessoa declara falência nos os EUA, nossa Constituição prevê o direito de começar de novo.

Ao acelerar o processo de resolução de inadimplência e de reestruturação de empresas viáveis, os tribunais dos EUA levam à frente o processo de renovação nacional, mesmo que nossos políticos ainda não tenham a coragem de liderar. Suspeito que isso também mudará – e muito em breve. Conversa fiada e tergiversação em Washington não poderão evitar o processo de liquidação em andamento na economia real. Breve, a realidade da renovação e de reestruturação ao nível micro será visível ao nível macro também. E isso é uma boa notícia.