Mostrando postagens com marcador Ben Bernanke. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ben Bernanke. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

John Williams: "Haverá um Pânico no Dólar e Hiperinflação nos EUA nos Próximos 6 a 9 Meses"

Por Marco Aurélio

"Uma meia-verdade é uma mentira inteira."
Ditado iídiche

John Williams é o fundador e presidente de Shadow Government Statistics. Seu trabalho consiste em "expor e analisar falhas nos dados e relatórios do governo dos EUA, bem como de certas organizações do setor privado". Além disso, Shadow Stats "fornece uma avaliação de fundamentos econômicos e financeiros, livres dos exageros e distorções da política e da mídia corporativa."

Os dados e estatísticas publicados por Williams têm sido essenciais para determinar, com algum grau razoável de precisão, o estado real da maior economia do mundo. Quem acompanha a política e a economia dos EUA sabe que, há muito, o governo americano abriu mão de qualquer pretensão de transparência e honestidade na divulgação de números estatísticos. Dados relativos à inflação, o montante real de obrigações previdenciárias a descoberto, a taxa de vazamento do poço da BP no Golfo do México, indicadores de diversos mercados – todos esses números são torturados para que digam o que o governo dos EUA quer ouvir. Sofrem com artifícios semânticos, omissões, meias verdades e mentiras deslavadas, que tornam a leitura de qualquer jornal da Grande Mídia americana uma experiência parecida com assitir à televisão na China, ler o Pravda nos dias da União Soviética ou folhear as páginas de Veja.

Zero Hedge comenta a entrevista concedida por John Williams à BNN (Business News Network). Diz:
Williams segue a economia americana como se fosse uma empresa pública auditada segundo o GAAP (nota: com certeza, Zero Hedge se refere aos auditores de antigamente, e não aos de hoje). Diz que, ao contrário de Ben Bernanke, tem certeza absoluta de que "mais cedo ou mais tarde, haverá uma depressão hiperinflacionária". Explica: 
O déficit anual está entre USD 4 trilhões e USD 5 trilhões – isso inclui a variação ano-a-ano dos passivos a descoberto ... Não há vontade política para lidar com isso.
O catalisador de uma crise é bem conhecido dos leitores de Zero Hedge:
Quando tivermos uma venda do dólar movida a pânico, é aí que teremos que ter muito cuidado. Mas, só com o que já foi feito com o dólar até agora, tivemos um salto no preço do petróleo e de outras commodities.
Perguntado por que Bernanke não vai conseguir fazer o que Paul Volcker, ex-presidente do Fed, fez no início da década de 1980 (1), a explicação de Williams se concentra no tamanho dos déficits na balança e no orçamento do governo, muito maiores hoje do que na época de Volcker. Diz que os números não são comparáveis, nem em termos absolutos, nem em termos relativos.
Quando lhe perguntaram especificamente sobre o que os consumidores devem fazer num mundo pós-apocalipse, Williams não se mostrou muito otimista. Ironicamente, observou que:
O Zimbábue, em seu processo hiperinflacionário, pode ter tido sorte por ter o dólar como moeda de troca no mercado negro. Mas os EUA não têm essa facilidade e, por isso, a situação vai ficar muito feia quando os alimentos começarem a desaparecer das prateleiras dos supermercados.
E Williams coloca toda a sua reputação em jogo ao definir um horizonte estreito para o pânico no dólar e o início de um processo hiperinflacionário: "os próximos seis a nove meses".

Para assistir à entrevista com John Williams na BNN, clique aqui ou na imagem abaixo.

(1) Volcker elevou a taxa-meta do Fed (Fed Funds Rate) de uma média de 11,2% em 1979 para 20% em junho de 1981, debelando, com sucesso, um surto inflacionário que levou a taxa a 13,5% por ano em 1981. Em 1983, a taxa de inflação foi de 3,2%. Números pífios para o Brasil, mas traumáticos para os americanos.


Espírito de Dilson Funaro Baixa em Ben Bernanke

Por Marco Aurélio

O blog da revista InvestMais analisa a queda nos Treasuries em 8/12. Aponta para a decisão do Obama e do Congresso americano de criar ou prorrogar uma série de medidas de estímulo à economia americana como os responsáveis. Segundo o raciocíncio, mais estímulo é igual a um déficit maior - e isso é ruim para os títulos do Treasury.

Mas a tendência mais abrangente ditando o rumo dos Treasuries (e do dólar) é a decisão - que Bernanke já havia deixado clara - de continuar a tirar dólares da cartola. Essa decisão foi reiterada em entrevista ao programa 60 Minutes, da rede CBS, na noite de domingo, 5/12. Bernanke disse que mais flexibilização quantitativa (conhecida pela sigla em inglês "QE" e, aqui no Brasil, pela expressão mais direta "imprimir dinheiro") é, nas palavras do chefe do Fed, "certamente uma possibilidade". Não que ele houvesse dito antes que mais QE NÃO fosse uma possibilidade. No domingo, só tornou a repetir que o Fed tem uma capacidade ilimitada de criar dinheiro do nada - e não tem medo de usá-la.

Assim o Fed e o Treasury de Geithner vão continuar a salvar bancos (Goldman, Merrill, Bank of America, Citi), hedge funds (como Greenspan, antecessor de Bernanke, fez com o LTCM em 1998), seguradoras (AIG), montadoras (GM, Chrysler, Ford), redes de lanchonetes (McDonald's), fabricantes de equipamento militar (GE), países (Irlanda, Grécia), bancos estrangeiros (UBS, Deutsche Bank) e qualquer entidade com caixa suficiente para manter lobistas no grande bazar que é Washington DC. 

Os brasileiros têm uma vergonha despropositada de seus políticos. Ao contrário dos parlamentares americanos, os brasileiros só fazem mal a seu próprio país. Já os primeiros, além de causar estragos nos próprios Estados Unidos, exportam problemas gravíssimos para o resto do mundo - inclusive, evidentemente, para o Brasil. Esses problemas não são tão fáceis de entender, nem tem nomes tão coloridos, como, digamos, o Valerioduto do Mensalão, a Máfia dos Sanguessugas e outros best-sellers da mídia nacional. Mas o estrago é ordens de grandeza maior.

Assim é com o novo QE de Bernanke, (pre/a)nunciado na noite de domingo. Já é o terceiro pacote. A situação começa a lembrar mais e mais as sucessivas (e fracassadas) tentativas de conter a inflação pelos diversos ministros das Finanças, Fazenda, Economia e Planejamento que se sucederam nos anos 80 e 90, do governo Figueiredo ao Itamar.

A diferença é que, quando um desses pacotes dava errado, tomava-se um avião para Washington para pedir socorro. Mas quando Washington quebra, para onde vira? Como lembra o Roubini, não vai chegar nenhuma delegação de Marte ou da lua para ajudar a resolver a situação de governos soberanos.

E a situação se agrava a cada dia. Os bond vigilantes estão empurrando as taxas de juros para cima - em 7 de outubro, estavam a 2,39%. Na quarta-feira, 8/12, fecharam o dia a 3,27% - um aumento de 36,82% em pouco mais de dois meses.

O Fed, então, pode continuar a imprimir a quantidade de dinheiro que quiser para salvar quem achar que for necessário. Mas vai ter que pagar mais e mais por isso, sob a forma de taxas mais elevadas. O mesmo vale para quem tem dívidas com taxas reajustaveis, como é o caso de detentores de hipotecas. Com taxas mais altas, aumenta o incentivo para atrasar pagamentos, ou simplesmente parar de pagar e devolver o imóvel aos bancos. Isso derruba ainda mais o preço dos imóveis e deixa os bancos comerciais "too big to fail" (Bank of America, Citi, Wells Fargo e JP Morgan Chase) um passo mais perto de ter que revelar seu quadro de insolvência - o que forçaria o Fed a imprimir mais dinheiro para salvá-los, jogando as taxas para cima e derrubando ainda mais os títulos do governo dos EUA.

Dilson Funaro, pai do Plano Cruzado, morreu em 1989. Mas Delfim Netto, Bresser Pereira e Maílson da Nóbrega ainda estão por aqui. Poderiam ser contratados como consultores pelo Fed. Certamente fariam menos estrago do que o Bernanke.

E essa é a razão real por trás da queda precipitosa dos Treasuries e do dólar nas últimas semanas. O resto, como o teatro fiscal do Obama com o Congresso, é ruído.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

T-Bonds a 5%: O Nível que Vai Marcar uma Crise no Bond Market dos EUA

Queda nos Títulos do Governo Americano Ameaça Ilusão de Controle do Fed
Rick Ackerman
8 dezembro de 2010

Ler no original

Postado por Marco Aurélio

Ben Bernanke, que prometeu jogar dinheiro de helicópteros, se necessário, para combater uma deflação japonesa nos EUA, apareceu no programa 60 Minutes, da rede de TV CBS, na noite de domingo, 5/12/10.

Disse tantas coisas estapafúrdias que é difícil saber por onde começar a criticá-lo. O assim-chamado "entrevistador", Scott Pelley, demonstrou claramente não ter a mínima idéia do que estava falando. Vamos ter que esperar até que o deputado Ron Paul enfrente Bernanke no Congresso americano – só então vamos obter uma imagem mais clara das questões que, segundo o presidente do Fed, estão sob controle.

Durante a entrevista de domingo, o chefe do Fed negou estar imprimindo dinheiro. Pelley não o questionou quanto a essa tecnicalidade. Bernanke também disse que é capaz de matar a inflação de uma hora para a outra, se necessário. Esse absurdo, muito longe do alcance intelectual de Pelley, também passou impune. Ou talvez Pelley não se importe com as implicações letais para a economia implícitas nessa "solução", quais sejam, taxas de juro mais elevadas.

A hora da verdade para a flexibilização quantitativa

Temos péssimas notícias para quem acredita na eficácia da flexibilização quantitativa. Esse aviso vale tanto para o presidente do Fed, quanto para todo mundo que tem dívidas.


Uma olhada no gráfico acima ajuda a entender o por quê. O preço dos títulos de trinta anos no mercado futuro vem caindo feio há dois meses, com um aumento correspondente na taxa de juros. A taxa dos títulos de longo prazo estava em 3,73%, quando a queda começou. Agora está em torno de 4,43% - um aumento de quase 20%. Rick's Picks espera que o T-Bond de março continue a cair, possivelmente para um "pivot oculto" de apoio de 120 10/32. Nesse ponto, as taxas terão subido para cerca de 4,60%.

As coisas poderão ficar muito feias, no entanto, se a sustentação falhar, já que essa ocorrência poderia derrubar os futuros, até chegarem a 117 22/32. A esse preço, as taxas de longo prazo estariam em torno de 4,82%. Aplique essa taxa asfixiante à dívida pública, hipotecas ajustáveis e crédito ao consumidor, e o custo extra seria de centenas de bilhões de dólares para os contribuintes, mutuários e consumidores.

As expectativas mudam

Mas vai ser aí que os problemas do Bernanke vão começar, já que sua principal tarefa é, no final das contas, gerenciar expectativas. Com as taxas de longo prazo subindo lentamente rumo a 5%, esse número viraria um ímã: os credores tomariam como certa a possibilidade da marca de 5% ser alcançada. Inicialmente, o dólar se fortaleceria, à medida que as taxas de juros se soltassem de suas amarras administrativas e subissem rumo a níveis de mercado. Essa tendência poderia continuar, concebivelmente, por alguns meses - talvez por um ano - até que se torne claro que os custos mais altos dos empréstimos estão empurrando os títulos do Tesouro dos EUA rumo a um ponto de ruptura.

Ninguém pode prever o que vai acontecer se as percepções se transformarem em pânico. Mas, de maneira mais imediata, os mercados podem adquirir uma dinâmica própria, fadando ao fracasso os esforços do Fed de suprimir as taxas de juros reais usando nada mais que trapaças, mentiras e enganos.