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sábado, 11 de dezembro de 2010

Inflação e Superaquecimento Ameaçam Economia Chinesa

Por Marco Aurélio

Na hora de avaliar o estado da economia chinesa, três dados interessam a Li Keqiang, chefe do Partido comunista da China e provável sucessor de Wen Jiabao, atual primeiro-ministro.

Graças a um dos documentos diplomáticos dos EUA vazados pelo WikiLeaks de Julian Assange, o mundo ficou sabendo que, em um jantar recente com o embaixador dos EUA, Keqiang afirmou que, para saber a real situação da economia do país, bastam três indicadores: consumo de energia elétrica, volume de carga transportado por ferrovias e concessão de crédito por bancos. O resto, disse, incluindo o PIB, são dados, em suas palavras, que não merecem muita confiança.


Hoje, Keqiang com certeza também presta atenção à impressão de dinheiro que tomou conta da economia americana. A inflação tornou-se o principal produto de exportação dos EUA. Como explica Chris Mayer, do The Daily Reckoning:
Hoje, a inflação está na boca de todo mundo... na Ásia. Com o presidente do Fed, Ben Bernanke, permanentemente ocupado em injetar dinheiro na base monetária dos EUA para combater o que ele percebe ser uma ameaça deflacionária, acaba-se por colocar pressão sobre as economias no exterior, que se vêem obrigadas a imprimir dinheiro no mesmo ritmo. Querem evitar que suas moedas apreciem contra o dólar, tornando-se menos "competitivas". A mecânica por trás de tudo isso é um pouco complicada, mas o resumo da ópera é que os EUA estão "exportando inflação".

Esse tópico importante chegou aos prinicipais jornais ontem na seção Money & Investing do The Wall Street Journal. O jornal publicou dados sobre as taxas de inflação oficiais das maiores economias de mercados emergentes da Ásia.

A Índia lidera o grupo com uma taxa oficial de inflação de 8,6%. Nesse ritmo, os preços dobram na Índia em menos de nove anos. A Indonésia está em 5,8%, a China, em 4,4% e a Coréia do Sul, em 4,1%. São números acima das expectativas – e estão aumentando. Os investidores temem que os bancos centrais desses países apertem as atuais políticas monetárias liberais para tentar controlar a inflação.

Ao fazer isso, os investidores mostram uma preocupação com a possibilidade de desaceleração ou mesmo retração no crescimento econômico. Isso teria um grande impacto sobre os mercados de ações em todo o mundo, já que a maior parte do crescimento que as empresas obtiveram no ano passado veio dos mercados asiáticos. Afinal, os preços das commodities, que têm feito a alegria de muitos  investidores, foram impulsionados, em boa parte, pela demanda crescente de lugares como a Ásia.

A China já está ocupada tentando conter os aumentos de preços. Implementou controles – que nunca funcionam. Também tentou aumentar as reservas compulsórias de seus bancos, forçando-os, essencialmente, a manter mais em reservas e a emprestar menos.
De fato, o aquecimento na economia chinesa, bem como a inflação resultante, é uma preocupação central das autoridades. Sabem de seu potencial para causar distúrbios sociais em um país com oito cidades com uma população superior a 10 milhões e 221 cidades com mais de um milhão de habitantes.

No final dos anos 80, a inflação era o problema mais sério da economia chinesa. De um nível de 7,3% em 1987, a taxa saltou para 18,5% em 1988. O caos econômico do período foi uma das forças por trás do massacre da Praça da Paz Celestial de junho de 1989, quando milhares de chineses – principalmente estudantes – foram mortos pelo Exército Vermelho.

Zero Hedge confirma o aquecimento na economia chinesa:
Os índices de preços aos consumidores e aos produtores acabam de ser publicados: o IPC chegou a 5,1%, em linha com as expectativas do mercado, mas acima do consenso oficial de 4,7%. De longe, foi o número mais alto em mais de dois anos. O IPP excedeu a expectativa em 100 pontos-base, cravando 6,1%, em comparação com a expectativa de 5,1%. Esses "dados" devem ser suficientes para anular o impacto da elevação das taxas de reservas compulsórias de ontem à noite e forçar o banco central chinês a aumentar a taxa de juros. Se o banco central chinês não agir, vale perguntar por que o Politburo permitiria a divulgação de dados que apenas colocam ainda mais lenha no fogo do pavor inflacionário chinês.

Os preços ao consumidor subiram 5,1% ante o ano anterior, impulsionados pelos custos de alimentos, de acordo com um relatório do gabinete de estatísticas publicado hoje em Pequim. Isso foi acima da previsão média de 4,7% feita pela Bloomberg News em enquete com 29 de economistas. Em outubro, a inflação foi de 4,4%.

A alta nos preços ao consumidor e os grandes fluxos de capital na economia que mais cresce no mundo podem levar o banco central a estender o aumento de outubro nas taxas de referência – o primeiro desde 2007. O Banco Central chinês elevou ontem as reservas compulsórias para os bancos pela terceira vez em cinco semanas, a fim de retirar dinheiro do sistema financeiro.

"A justificativa para uma elevação das taxas para ajudar a gerenciar as expectativas de inflação agora é indiscutível", disse Wang Tao, um economista de Pequim baseado no UBS AG, antes do anúncio de hoje.

A China, que ultrapassou o Japão como a segunda-maior economia do mundo no segundo e terceiro trimestres deste ano, está atrás de países asiáticos como a Malásia e a Coreia do Sul na elevação de custos de empréstimos.

O relatório de hoje mostrou que o  crescimento da produção industrial chinesa acelerou para 13,3% no mês passado em comparação com o ano anterior. O número excedeu a estimativa mediana dos economistas de 13%.

As vendas no varejo subiram 18,7%. Investimentos em ativos fixos urbanos aumentaram 24,9% nos 11 primeiros meses de 2010 ante o ano anterior, ultrapassando a estimativa dos analistas de um ganho médio 24,3%.

O relatório também mostrou que os preços aos produtores subiram 6,1% em novembro ante o ano anterior, superando a previsão mediana de analistas de 5,1%. Os custos das matérias-primas como cimento, aço, combustível e algodão tiveram um salto, como mostra um levantamento dos gerentes de compras de 1 de dezembro.

Capital Economics Ltd., com sede em Londres, disse ontem que um aumento da taxa, após uma reunião de altos funcionários do governo chinês para discutir política econômica em Pequim neste fim-de-semana, "não pode ser descartada". O Politburo já anunciou oficialmente que o país vai mudar no próximo ano para uma política monetária mais apertada e "prudente".

A taxa de depósito de referência de um ano está em 2,5%, inferior ao ritmo da inflação, e a taxa para empréstimos está em 5,56%. O índice de ações Shanghai Composite caiu 10% de seu ponto alto de 8 de novembro, aumentando as perdas no ano para 13%. A queda foi movida pela preocupação de que um aperto na política monetária reduzirá o crescimento econômico e os lucros.

"A inflação está se tornando o principal desafio para o governo nos próximos meses. Faz sentido que pensem em remédios mais fortes", disse Brian Jackson, um analista baseado em Hong Kong do Royal Bank of Canadá, antes da divulgação dos dados de hoje. Esses remédios podem incluir um ritmo mais rápido de valorização do yuan, bem como taxas mais elevadas no final do ano, disse.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mish: China Combate Superaquecimento da Economia, Impõe Controle de Preços ao Wal-Mart

Postado por Marco Aurélio

A desaceleração econômica na China terá graves efeitos por todo o mundo – especialmente em países exportadores de commodities e semi-manufaturados, como o Brasil, Austrália e Canadá. As economias desses três países têm sido poupadas dos efeitos mais sérios da crise iniciada em 2007, inclusive em seus setores imobiliários. Isso tem ocorrido, em boa parte, graças às políticas expansivas da China, que tenta amenizar as consequências econômicas e sociais causadas pela quebra de seu maior cliente, os EUA.

Como disse Jim Chanos, investidor que acredita que o atual nível de expansão chinesa é insustentável, os produtores de minério de ferro em geral, e a gigante brasileira Vale em particular, seriam vítimas. A enorme quantidade de investimentos de capital na China criou a demanda por grandes volumes de aço e outros metais. Isso, por sua vez, tornou a China o maior mercado do mundo para minério de ferro.

Mish (Michael Shedlock), do Global Economic Trend Analysis, observa, nesta segunda-feira, 6/12, que o "Governo Chinês Muda e Adota Política Monetária 'Prudente'".
Em resposta aos altos níveis de inflação (que, mesmo assim, permanecem subestimados), o governo chinês anunciou que vai adotar uma política monetária "prudente".
Da Reuters:
A China vai mudar para uma política monetária prudente, abandonando a atual posição moderadamente frouxa. Foi isso que os principais líderes do Partido Comunista decidiram na sexta-feira, 3/12/10. Essa mudança poderá abrir o caminho para mais aumentos de juros e controles de crédito.

Ao mesmo tempo, o Politburo chinês optou por manter a política fiscal pró-ativa da China, uma indicação de que o governo quer continuar a aumentar os gastos com novos investimentos, ao mesmo tempo em que toma medidas restritivas para controlar a inflação.

"Isso significa que todos os tipos de instrumentos da política monetária para controlar a liquidez e para controlar a inflação agora poderão ser usados", disse Ken Peng, um economista do Citigroup, em Pequim.

"No passado, estávamos claramente focados em medidas administrativas. De agora em diante, poderemos usar mais ajustes de preços via taxas de juros", disse, acrescentando que espera cinco aumentos nas taxas até o final do próximo ano.
Governo Controla Preços da Wal-Mart na China
Será que cinco subidas nas taxas até o final de 2011 serão suficientes? Como ninguém sabe a resposta, a coisa sensata a fazer seria começar a escalada agora, a fim de conter a expansão desenfreada do crédito.
A cidade chinesa de Kunming, no sudoeste do país, onde tanto a Wal-Mart Stores Inc. quanto o Carrefour SA possuem lojas, impuseram um teto temporário nos preços de artigos da cesta básica, a fim de combater a inflação.

O governo de Kunming pediu a cinco varejistas - três não-chineses, um chinês e um baseado em Hong Kong - para comunicar quaisquer reajustes de preços e dar razões para as alterações dois dias antes de executá-las, o escritório local da Comissão de Desenvolvimento Nacional e Reforma disse em seu site ontem.

Além das cinco empresas, outros produtores de alimentos, óleo de cozinha e bebidas estão obrigados a solicitar a aprovação do governo dez dias úteis antes de alterar preços, disse o comunicado.

O governo municipal também estabaleceu preços máximos temporários sobre artigos da cesta básica em várias partes da cidade, uma imposição que começou ontem e vai se estender até o final de fevereiro, disse o comunicado. Os preços de grãos, óleo de cozinha, carne, ovos, leite e macarrão devem ficar nos níveis aos quais se encontravam antes de 17 de novembro, disse o comunicado.

A cidade também limitou os preços de varejo de hortifrutigranjeiros, dependendo do tipo, a 40% a 100% acima dos preços de atacado.
Controles de Preço Nunca Funcionam

Nunca na história a prática de controlar preços levou a algo bom, a menos que você considere a falta de produtos nas prateleiras uma coisa boa. Podemos agora esperar que produtos comecem a faltar e que os preços comecem a ser estabelecidos no mercado negro, se o setor de serviços e os supermercados não conseguirem repassar os aumentos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Jim Chanos vs. China - Bye-Bye Vale do Rio Doce


A revista Fortune entrevista Jim Chanos, que fala sobre seus motivos para ser pessimista em relação à China - e explica por que as exportações de minério da Vale para a China podem sumir de repente. M.A.


Fortune
17 novembro de 2010

Postado por Marco Aurélio

 
O influente short seller Jim Chanos aposta que a economia chinesa está prestes a implodir num colapso imobiliário espectacular. Muita gente espera que Chanos - que previu o colapso da Enron – esteja errado desta vez.

Entrevistador: Bill Powell
A cena é uma festa muito acima do horizonte de Xangai, em uma noite de verão, há alguns meses. Nosso anfitrião é um mago do Universo de Hedge Funds. Prefere permanecer anônimo, então vamos chamá-lo de Pete.

Pete vem à China pelo menos duas vezes por ano para ver de perto o que está acontecendo na economia mais dinâmica do mundo. Diz que, se não tivesse filhos na escola nos EUA, pensaria em mudar para cá, um país com um futuro brilhante. Também presentes à festa estão outros investidores de hedge funds, venture capitalists, gestores de fundos e todo mundo com uma visão otimista sobre o futuro da China.

Mas há uma maneira infalível de estragar a festa: é só perguntar aos convidados o que acham do lendário short seller James Chanos, diretor executivo da Kynikos Associates, com base em Manhattan.

Então é isso que eu decido fazer.

"Ei," digo a um aglomerado de pessoas ao redor Pete. "Vocês viram o que o Jim Chanos falou sobre a China no programa do Charlie Rose outro dia?"

"Não", diz um venture capitalist americano que trabalha em Xangai. "O que foi que ele disse?"

"Disse que a China está correndo sobre uma esteira econômica em direção ao inferno."

Há mais de um ano, Chanos - o homem que acertou sobre a quebra da Enron (entre outras coisas) antes de qualquer outro – tem travado uma campanha contra a China. O cara que ficou famoso - e rico – vendendo a descoberto (shorting) empresas agora diz que ele está vendendo um país inteiro.

Quando menciono a expressão "esteira para o inferno" para o grupo em Xangai, a reação é a de sempre quando surge o nome de Chanos: "O que ele sabe sobre a China?" pergunta o VC americano. "Já morou aqui? Tem gente trabalhando aqui? Fala chinês?"

As respostas são não, não e não. Mas o nosso anfitrião, que considera Chanos um amigo, sabe que essa não é a questão. "Ele acertou com a Enron", diz Pete. "E Tyco. E toda a catástrofe das hipotecas nos EUA." E conclui: "Ele pode estar errado, mas você precisa me dizer por que ele está errado. Não basta dizer que ele não mora aqui."

Chanos sorri quando lhe conto a história em uma manhã recente, em Nova York. Sabe que se tornou um pára-raios. "A única vez que já fui vaiado ao dar uma apresentação sobre investimentos foi no início deste ano, em Oxford", diz. "Alguns estudantes chineses ficaram tão irritados comigo que começaram a gritar, dizendo o mesmo tipo de coisa: 'O que você sabe sobre a China? Como se atreve a dizer essas coisas!'"

Não é, claro, só os jovens chineses que se exaltam com o assunto. Qual empresa Fortune Global 500 não está apostando que a China é o futuro? Para muitas empresas, a possibilidade de Jim Chanos estar certo, de que poderia haver um colapso na China ao estilo dos EUA ou Japão, é mais do que assustador. É impensável.

Algo sem precedentes

Como Chanos desenvolveu essa obsessão com a China? Tudo começou em 2009, quando ele e sua equipe na Kynikos examinaram os preços das commodities e das ações das grandes mineradoras. "Tudo o que fizemos em nosso exame a nível micro (sobre commodities) remetia sempre para o mercado imobiliário da China", diz Chanos. O boom de construção da China estava comandando a demanda por quase todos os materiais básicos.

Um dia, numa conferência de pesquisadores em 2009, Chanos ouviu um analista discorrer sobre os números por trás do gigantesco boom de construção da China. "Disse que estavam construindo 5 bilhões de metros quadrados de espaço residencial e de escritórios novos, sendo 2,6 bilhões de metros quadrados só em novos escritórios. Eu disse a ele: 'Você deve ter colocado o ponto decimal no lugar errado.' Ele disse que não, os números estavam certos. Então vamos fazer as contas:... São quase 30 bilhões de pés quadrados de construção nova; há 1,3 bilhões de pessoas na China. (Considerando apenas o espaço de novos escritórios), isso equivale a uma baia de 2,3 metros quadrados para cada homem, mulher e criança no país. Foi quando me dei conta de que a China estava embarcando em algo sem precedentes.''

Kynikos hesita em mandar seus executivos para a China. Alguns analistas às vezes fazem viagens de pesquisa, embora Chanos mesmo nunca vá. Dada a sua reputação lá, diz ele, "é provavelmente melhor que eu não vá . Posso até ver a manchete do New York Post: INVESTIDOR DE NOVA YORK MORRE VÍTIMA DE TERREMOTO DE UM HOMEM SÓ".

Chanos diz que, por trás das análises de sua empresa, estão os dados do próprio governo chinês, disponíveis ao público, tais como números da Agência de Estatísticas e da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o ministério econômico mais poderoso da China. No ano passado, diz, sua equipe desenvolveu um "banco de dados proprietário" que acompanha as vendas de imóveis na China. "Não usamos dados falsificados. Nem ficamos apenas ouvindo ou vendo o que queremos", insiste. E ele tem uma resposta padrão para quem diz que ele não conhece a China porque não mora lá: "Eu também não trabalhava na Enron."

Tantos imóveis vazios

Para compreender o ceticismo de Chanos em relação à China - que ele chama de "Dubai multiplicado por mil" - vale a pena conhecer o novo condomínio do Vale Rose e Ginko, próximo a Sheshan Mountain, um novo subúrbio de Shanghai. Quarteirão após quarteirão de casas foram construídos. E estão vazios.

Nas maiores, mais ricas cidades do país - Pequim, Xangai, Cantão e Shenzhen, conhecidas como as cidades de primeiro nível entre os conhecedores do mercado imobiliário – esse não é um fenômeno incomum. Existe um grande contingente de imóveis novos e desocupados na China. Exatamente quantos - e até que ponto devem representar uma preocupação - são um debate crucial.

Contas de ativos de renda fixa representam mais de 60% do PIB global da China. Nenhuma outra grande economia chega perto. Desse total, pouco menos de um quarto corresponde a investimentos novos em imóveis.

Não existem dados anuais confiáveis sobre a quantidade de construções em andamento, nem sobre o volume vendido. Em 2009, por exemplo, os consumidores chineses compraram 44% mais espaço residencial que em 2008.
Casas desocupadas em uma subdivisão do distrito Kangbashi, nos subúrbios de Ordos City, nda Mongólia Interior

Mas não existem estimativas oficiais ainda para o número habitações privadas desocupadas, para a proporção de novas moradias vendidas que estão realmente ocupadas. (O governo, sinalizando que entende a importância da situação, está realizando um censo agora para tentar entender a situação).

Um bom exemplo é o projeto Sheshan. Um porta-voz da construtora que está tocando o projeto, baseado em Chongqing, disse apenas que quase todas as unidades foram vendidas antecipadamente. Isso, de fato, tem sido um procedimento operacional padrão no mercado de novas moradias na China. Compradores assinam contratos com a construtora, com o imóvel ainda na planta, e a construtora leva esses contratos ao banco para obter financiamento. Muito poucos projetos são feitos no risco.

Mas isso ainda deixa a pergunta que deixa muita gente nervosa - e que faz Chanos pessimista em relação à China: por que tantos apartamentos e casas, adquiridos e pagos, permanecem vazios? E como isso pode não ser visto como um mau sinal para o mercado imobiliário na China? E se isso significa dor futura para o mercado imobiliário, considerando que a venda de imóveis novos representou 14% do PIB em 2009, isso não significaria que o problema, mais cedo ou mais tarde, vai afetar o resto da economia?

Ninguém disputa que o mercado imobiliário na China é extremamente especulativo. Um investidor que mora perto de mim, num subúrbio de Xangai, comprou – acreditem se quiser - 43 imóveis nos últimos três anos. Ainda não se desfez deles porque, segundo ele, os preços continuarão a subir.

Chanos enumera várias razões para esse tipo de comportamento. Os investidores individuais chineses têm opções limitadas sobre onde podem colocar seus renminbi. Podem colocar seu dinheiro em uma conta bancária padrão e receber uma taxa negativa de retorno, dada uma taxa de inflação de cerca de 3%. Podem colocar o dinheiro no mercado de ações, mas as ações na China são muito mais voláteis do que nos mercados desenvolvidos. Controles de capital limitam as oportunidades de investimento para estrangeiros. Isso deixa apenas o mercado imobiliário como opção.

Chanos reconhece que a classe média emergente da China considera os imóveis uma reserva de valor. Para muitos, comprar um apartamento em Xangai ou Pequim é como comprar uma barra de ouro. E um grande número - "excessivo", diz Chanos – continua comprando, mesmo com a alta nos preços dos últimos cinco anos.

A equipe de Chanos, como inúmeras outras pessoas, tenta entender melhor o número de imóveis vazios que existem na China. Um economista independente com visão negativa sobre a China, Andy Xie, estimou o montante no equivalente a 15% do PIB. Chanos não reconhece esse número em particular, mas acredita que "é um grande problema, e está ficando pior, não melhor, com mais unidades chegando ao mercado."

Chanos: Certo ou errado?

Não há dúvida de que a febre especulativa no mercado imobiliário tem chamado a atenção do governo chinês. No segundo trimestre deste ano, Pequim começou a endurecer as condições de financiamento e está tentando limitar o número de unidades que um investidor individual pode comprar a dois imóveis. Durante algum tempo, essas medidas esfriaram o mercado. Mas Chanos lembra que os preços estão subindo de novo, e mais de 30 milhões de novos apartamentos, mansões e casas devem entrar no mercado no próximo ano. Se o governo não intensificar seus esforços para tentar conter a especulação, o mercado pode azedar mais cedo do que imaginam, acredita Chanos. E se o governo não intensificar os esforços contra os especuladores, "vão estar se enfiando mais alguns metros no buraco". De qualquer maneira, diz, "vão acabar no mesmo lugar." Considere Dubai, diz: no auge do seu boom, havia 240 metros quadrados de imóveis em construção para cada USD 1 milhão do PIB nacional. Nas cidades chinesas de hoje, essa proporção é quatro vezes maior. "Já assistimos a esse filme", diz. Seja Dubai há alguns anos, Tailândia ou Indonésia durante a crise asiática do final dos anos 90, ou Tóquio cerca de 1989, "isso sempre acaba mal".

Chanos aposta seu dinheiro em suas convicções. No mês passado, ele compareceu à conferência promovida por Grant's Interest Rate Observer no Plaza Hotel, em Manhattan, e não apenas expôs os motivos de seu pessimismo em relação à China, como também enumerou as ações de empresas nas quais está vendido (short). Poly HK é uma delas: uma construtora com ações na bolsa de Hong Kong (e uma empresa que a Goldman Sachs recomendou para compra no mês passado). É uma estatal que começou como uma empresa de defesa, mas, atraída pelo boom, mergulhou no mercado imobiliário. Chanos também está vendido em relação a todo o índice da Bolsa de Hong Kong. E acredita que o China Merchants Bank, um dos maiores de Pequim, tem uma grande exposição às agências regionais de financiamento dos governos locais em toda a China. Cerca de 11% da carteira total de empréstimos em aberto, de acordo com Chanos, é para essas filiais de financiamento locais (conhecidas como Veículos de Financiamento do Governo Local, ou LGFVs, na sigla em inglês).

Qual a importância disso? Uma proposição-chave da teoria altista para o mercado imobiliário da China é a falta de alavancagem. O sistema financeiro simplesmente não está em risco, diz essa linha de pensamento, mesmo que haja um colapso do setor imobiliário. Mas Chanos acredita que os LGFVs estão profundamente expostos à construção, e que, caso haja uma virada no mercado, a dor sentida pelo China Merchants Bank, bem como por outros, será considerável. Victor Shih, um professor da Northwestern University, fez um estudo no início deste ano e concluiu que esses LGFVs acumularam USD 1,6 trilhão em novas dívidas entre 2004 e 2009. Como Chanos lembra, o próprio banco regulador da China começou recentemente a limitar empréstimos locais, depois de concluir que 26% do saldo em dívida é de "alto risco".

A desaceleração na China teria graves efeitos por todo o mundo. Chanos acredita que os produtores de minério de ferro, e a gigante brasileira Vale (VALE) em particular, seriam vítimas. A enorme quantidade de investimentos de capital na China criou a demanda por grandes volumes de aço e outros metais, e isso, por sua vez, tornou a China o maior mercado do mundo para minério de ferro. Os papéis da Vale eram negociados no início de novembro perto do pico de 52 semanas, e seu CEO, Roger Agnelli, recentemente se gabou de que tem a maior frota de navios do mundo, depois da marinha dos EUA. Se você adotar o ponto-de-vista de Chanos, isso não é uma boa coisa. Segundo ele, "A Vale vai ter um monte de navios vazios em mãos".

Motivos para otimismo

Quem vende a descoberto (short-sellers) é geralmente desprezado –a menos e até que acabem tendo razão. É isso que está acontecendo agora. O sentimento sobre a China é tão otimista que as pessoas pensam que Chanos ou enlouqueceu ou está de alguma forma envolvido numa enorme armação e não pode ser levado a sério. (De fato, ele não diz quanto do USD 1 bilhão sob gestão da Kynikos está em jogo em posições relacionadas com a China). "Por que expresso minhas opiniões sobre a China?", pergunta. "Pela mesma razão que o fiz com a Enron. O público só ouve o caso otimista. Eu tenho uma história a contar, e não tenho medo de contá-la. Estas são as nossas convicções sobre a China, e estamos agindo de acordo. Então podem rebater o que digo. Queremos ouvir os contra-argumentos. Sério."

Muitas pessoas estão dispostas a aceitar seu desafio. O caso otimista para a China tem muitos componentes, mas o mais importante é a alavancagem - ou melhor, a falta dela. Considere o investidor - seu nome é Yue Shi Cheng - que me disse possuir 43 apartamentos em Xangai. Ele não aluga nenhum – algo que não é incomum na China; os aluguéis são baratos, e muitos proprietários, portanto, acreditam que o tempo e o aborrecimento de ter locatários não valem a pena. Das 43 unidades que possui, pagou do próprio bolso por todas – nunca tirou uma hipoteca. De acordo com um estudo recente da CLSA Asia Pacific Securities, o uso de hipotecas está aumentando na China, mas apenas 40% de todas as casas compradas são financiadas por dívida. Mesmo quando isso acontece, os compradores chineses geralmente têm que dar uma entrada de 30% ou mais do preço de venda.

Aqui não há "empréstimos mentirosos" (liars' loans). Não há securitização de hipotecas. O financiamento de imóveis é feito à moda antiga: os compradores arcam com o risco. A falta de alavancagem no sistema significa que, mesmo que haja um declínio significativo nos preços dos imóveis, é improvável que o sistema financeiro chinês seja danificado de forma séria.

Chanos alega que existe mais dívida não-contabilizada pelos veículos de financiamento local do que os otimistas querem admitir, e que os créditos duvidosos, quando o mercado imobiliário mudar de direção, vão se acumular mais rapidamente do que o esperado. Essa é uma área em que o governo chinês já admitiu precisar dar mais informação ao mercado; mas, mesmo contando apenas o que é conhecido publicamente, os otimistas simplesmente discordam de Chanos. Arthur Kroeber, diretor-gerente do Gave-Kal Dragonomics, uma consultoria econômica sediada em Pequim, diz que o governo central já está forçando os governos locais a diminuir os empréstimos e até fechou vários LGFVs que não tinham receitas suficientes para o serviço de suas dívidas com os bancos. "A dívida do governo chinês", diz Kroeber, "é claramente administrável".

O segundo componente do argumento otimista é simples: dizem que a combinação de altos preços e o excesso de construções em Pequim e Xangai simplesmente recebem mais atenção do que merecem. Andy Rothman, economista chefe para a China do CLSA, lembra que o montante total do espaço comprado em cidades pequenas de terceiro nível (onde quase 357 milhões de pessoas - ou 57% da população urbana da China - vivem) tem aumentado lentamente como uma percentagem do total nacional. E nessas cidades os preços estão até 70% mais baixos do que nas quatro cidades mais ricas do país: Pequim, Xangai, Shenzhen e Guangzhou. "Não há bolha imobiliária nacional", afirma Rothman.

A renda pessoal, além disso, continua a subir na China, assim como o consumo. No primeiro semestre deste ano, o rendimento urbano disponível cresceu mais de 6%, depois de uma aumento de 10% no ano passado. "O aumento da renda continua a sustentar a ascensão da classe média", diz Rothman. Como resultado, "temos a melhor história de consumo do mundo."

A resposta de Chanos a esses dois pontos básicos é direta: "É uma economia que tomou anabolizantes", diz. Assim como o Japão na década de 1980 cresceu principalmente com base no investimento, a China terá que parar, eventualmente. "O Japão tornou-se uma máquina de destruição de capital, e é isso que a China é agora. Temos uma economia com uma taxa de 60% de investimento em ativos fixos, e nem mesmo no mundo em desenvolvimento isso é sustentável. Não foi no Japão. Não foi na Coréia."

Chanos é agnóstico em relação ao momento preciso de uma quebra para valer da China; tampouco tem idéias específicas sobre o que poderia desencadear uma recessão. Apenas acredita que ela está chegando. Uma possibilidade - refletida por um forte declínio do mercado de ações em 12 de novembro - é que a aceleração da inflação possa forçar o banco central chinês a restringir o crédito mais rapidamente do que o esperado, colocando uma pressão adicional sobre as construtoras.

No final da enrtrevista, digo-lhe que eu também tenho investimentos na China, com apostas no setor imobiliário. Minha esposa e eu compramos uma casa modesta num subúrbio de Xangai há alguns anos e, pelo menos no papel, ganhamos dinheiro. Casas semelhantes na nossa região têm sido vendidas por preços muito acima do que pagamos. Ele sorri e diz: "Bem, boa sorte."

Na verdade, eu ainda sou, relativamente falando, um otimista em relação à China. Mas eu moro perto do condomínio do Vale Rose and Ginko. Devo admitir que, mesmo antes de conhecer Chanos, cada vez passava pelo condomínio, à noite, eu desejava secretamente ver algumas luzes acesas. E continuo a pensar assim – agora mais do que nunca.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Teoria e Prática da Re-Inflação

Entrevista com Eric Janszen, autor de A Economia Pós-Catástrofe: Reconstruindo a América e Evitando a Próxima Bolha.

Postado por Marco Aurelio

“Na teoria, o balanço do Federal Reserve pode ser expandido infinitamente."
-- Alan Greenspan, 2005

"Se os fatos não batem com a teoria, mude os fatos."
-- Albert Einstein

CI: Vamos começar com o item de maior urgência: que diabos está acontecendo com o ouro? Será que estamos vendo a "Grande Volatilidade" sobre a qual você vem avisando desde 2001, aquela que indicaria o fim do mercado em alta (bull market) para o ouro?
EJ: Não é um "bull market". A idéia de bull market e bear market é idiota, é um produto-conceito de vendas criado por Wall Street. Esqueça isso. Os mercados são um campo de batalha. A briga é por dinheiro. As armas são a informação e o controle da informação. O que determina o vencedor é o poder de compra, quem está aumentando o tanto que tem e quem está perdendo, por meio dos impostos, da desregulamentação, dos subsídios, da inflação ou da alavancagem. O resto é não interessa. Tendo dito isso, não, eu não acho que a volatilidade dos preços do ouro e da prata da semana passada indica que a subida do preço do ouro da última década acabou. É a mesma história, embora a hora do espetáculo esteja mais perto.

CI: Hora do espetáculo?
EJ: Compramos ouro em 2001 porque achávamos que os bancos centrais mundiais estavam protestando demais sobre a inutilidade do ouro como um ativo monetário; disseram que o ouro não tinha valor e, mesmo assim, ainda detinham mais de 20% de todo o ouro já produzido na história. Imaginamos que estavam armando um hedge contra a falha potencial de uma grande experiência, de uma moeda de reserva com base no dinheiro da dívida de um único estado soberano, os EUA. A Guerra do Iraque em 2003 e o colapso dos mercados de crédito global em 2008, devido a uma avaliação errônea e, portanto, uma precificação errônea de títulos garantidos por ativos (asset-backed securities), forneciam provas suficientes para os membros do Sistema, como Greenspan costumava chamá-los, de que o país emissor dessa moeda de reserva não é apenas sistemicamente corrupto, como o é qualquer plutocracia, mas venalmente corrupto, nas palavras de Simon Johnson – um país dirigido por uma oligarquia financeira. Não se pode confiar nos EUA. É preciso encontrar um arranjo monetário alternativo. Esse foi o motivo do empurra-empurra nas vésperas do G20 na semana passada. Fazendo uma leitura do balão de ensaio do Banco Mundial sobre o uso do ouro em um novo arranjo monetário, da observação não-autorizada do Volcker sobre os perigos do QE2 e da afirmação de Greenspan de que os EUA estão intencionalmente desvalorizando o dólar como uma ferramenta de reflação, fica claro até mesmo para um observador qualquer que o papo mudou de vez. As tensões são grandes e tudo pode acontecer.

CI: Como foram os movimentos da semana passada do preço do ouro, resultantes do G20?
EJ: Pura especulação, mas parece que houve uma escalada de USD 50 a caminho da reunião, à medida que o mercado precificava a discórdia entre os membros do G20. Então vimos dois ataques sincronizados contra o preço do ouro e da prata durante a semana passada, um antes da reunião de 9 de novembro e outro durante a reunião de 12 de novembro. Conseguiram raspar 4% do preço de USD 1.421 – o pico no preço do ouro.


Já vi essas mudanças coordenadas nos preços do ouro e da prata muitas vezes ao longo dos anos, como ocorreu em 22 de junho de 2008, quando o ouro caiu de USD 904 a USD 875 e a prata, de USD 17,30 para USD 16,50.


CI: O que essas quedas coordenadas nos preços do ouro e da prata podem significar?
EJ: Pode ter certeza que a compra e venda programáticas de fundos são responsáveis, mas eu estou confortável com a conclusão a que chegamos quando estudamos o caso em junho de 2008: ninguém sabe ao certo. A única certeza é que não há relevância a longo prazo. Se você acha que um sistema monetário e de comércio global quebrado, e que vem quebrando há dez anos, será corrigido em algumas reuniões entre a turma de MBAs de Harvard, então, por favor, venda ouro e compre ações.

A imprensa de Wall Street relatou a queda de 4% com manchetes como "Chacina no Mercado de Ouro". Vamos, mais tarde, comparar a chacina no ouro com a do mercado de ações este ano.

 
Razão do preço do ouro médio mensal / média mensal do S&P 500

O ouro subiu 20% em 2010, comparado com 5% para o S&P500, numa média mensal. Grande chacina... Essa tabela será atualizada para o nosso relatório de final de dezembro, onde vou repassar minhas previsões para o ouro e o mercado de ações para 2010, um ano de reflação pós-recessão.

CI: Você disse que tinha uma atualização do gráfico de 10 anos.
EJ: Aqui está. 2010 vai marcar o décimo ano consecutivo de ganhos no preço do ouro.


Média mensal do preço do ouro versus média mensal S&P500 (janeiro de 2001 a novembro 2010)

Mas o que é um "hedge"?
 
CI: Não se esperaria que o ouro superasse o desempenho das ações no longo prazo.
EJ: O mais estranho sobre o desempenho da nossa carteira de ouro e de obrigações do Tesouro americano é que o ouro e títulos do Tesouro são considerados um hedge contra saques em ativos-base, especialmente ações, mas os hedges supostamente de curto prazo superaram o ativo principal que deveriam estar protegendo. Nós temos só os hedges, e não os bens que deveriam proteger.

CI: Se o desempenho do ouro foi muito melhor este ano do que o esperado, o que nos aguarda para o próximo ano?
EJ: Tenha em mente que o principal motor para o preço do ouro em 2010 foi a reflação, e o principal motor da reflação foi a depreciação do dólar, que deixou p*utos da vida a China, o Brasil e o resto do G20 antes das reuniões da semana passada.

CI: Então não há uma grande correção do ouro a caminho?
EJ: Eu não disse isso. Desde 2001 sobrevivemos a duas correções importantes do mercado de ouro, uma em 2006 e outra em 2008. Não emitimos um alerta de preço para o ouro desde 5 de março de 2008, quando o ouro era negociado a USD 974. Naquela época, em Gold Update: The small trade within the big trade, avisamos que uma correção de USD 200 estava por vir. A correção começou duas semanas mais tarde, depois que os preços do ouro passaram brevemente a marca dos USD 1.000.


Desde 2001, o preço do ouro mostrou quatro tendências distintas de crescimento, como mostrado acima.

A. 2001 - 2006: trade de desvalorização da moeda e da inflação graduais no pós-bolha.
B. Primeiro semestre de 2006: Comércio especulativo rápido.
C. Primeiro semestre de 2006 a 2007: Reinício da desvalorização cambial e do trade gradual da inflação.
D. 2007 - Presente: Novo trade especulativo rápido.

No final das contas, a correção foi mais profunda do que eu esperava, mais perto de USD 300 a USD 200, caindo até USD 712 em outubro, refletindo o impacto do colapso global dos mercados de crédito privado em investimentos não-denominados em dólar, antes da reflação econômica e socorro aos bancos (bailouts) começarem para valer. Aqui está o gráfico atualizado até hoje.



Duas correções importantes preço do ouro durante a escalada de dez anos

O gráfico mostra a correção que previmos para março de 2008 e que, de fato, começou naquele mês. A escalada durante a reflação de hoje atravessou a temporada de eleições nos EUA e também a reunião do G20. Com 20% de ganhos até agora este ano os preços do ouro estão muito à frente do aumento de 4% eu previ em janeiro.

CI: Você acha que as duas correções do preço do ouro, "A" e "B", em 2006 e 2008, respectivamente, podem ser seguidas por uma terceira, "C", em breve?
EJ: Bem, está chegando a hora de alguém cometer uma burrice. Como os governos se colocaram num canto apertado, as únicas saídas são ou aguentar a dor ou então derrubar a parede para tentar escapar.

As defesas contra a deflação de dívidas dos EUA, ou seja, a desvalorização da moeda e a flexibilização quantitativa (quantitative easing), estão criando uma crise de entrada de capitais e de inflação para a Europa, Ásia e América Latina.

As conseqüências domésticas de não cancelar as dívidas da Era da Bolha de Crédito são o alto desemprego crônico e políticas inflacionárias para fechar o chamado Hiato do Produto (Output Gap), que têm o efeito de elevar a inflação nas economias dos parceiros comerciais dos EUA. Não dá para mundo conseguir o que quer.

CI: E quanto a sua previsão para dezembro de 2010, de que o índice Dow Jones chegaria a 7000-8000 até o final do ano?
EJ: Não parece que será o caso.

CI: Mas o índice realmente chegou ao pico perto de 11.000, como você havia dito.
EJ: Certo. A questão era, qual a altura que seria atingida no Segundo Salto da Deflação da Dívida deste mercado em baixa (bear market)? Errei por quatro meses quanto ao momento do fim do primeiro salto. Terminou em abril de 2010, não dezembro de 2009. Ainda vejo um DJIA no intervalo de 7000 a 8000, mas talvez isso leve alguns meses a mais, comparado com o que calculei em janeiro. A questão para as ações é a política de reflação. O impasse no novo Congresso, dividido entre democratas e republicanos, não vai permitir que se realizem cortes, mas também não haverá programas de estímulo, a menos que haja urgência. Um colapso da bolha da China pode criar essa urgência. Vamos ficar de olho nessa questão.

CI: Você acha que devemos ter outra correção no preço do ouro, como aconteceu em 2008?
EJ: Não como em 2008. A estrutura dos mercados de crédito privado não chega nem perto do que era em 2008. Ninguém é tão burro hoje. Ninguém acredita que as agências de rating dos EUA são independentes. Basta ver o mercado de títulos comerciais garantidos por ativos (asset-backed commercial paper).


Ninguém acredita que um título de agências do governo, como Freddie Mac ou Fannie Mae, é "livre de risco". O mesmo vale para uma obrigação do Tesouro dos EUA. Não há risco de default, mas o risco de inflação está presente. Hoje Greenspan alerta de forma aberta sobre isso.

CI: Como o mundo mudou em três anos! Será que a "austeridade" é a próxima onda de política governamentais que vai derrubar os preços das commodities?
EJ: A alavancagem está agora nos balanços públicos, não nos privados, então um repeteco de um impulso deflacionário como em 2008 não é provável. Foi o máximo de "deflação" que veremos pelo resto de nossas vidas. Mas é importante distinguir entre os EUA e a União Européia. Os gestores de fundos podem esperar que as assim-chamadas medidas de "austeridade" reduzam os riscos de crédito soberano ao longo do tempo, mas acho que todos os esforços para cortar gastos do governo de curto prazo serão frustrados pelos custos crescentes da energia a longo prazo, dado o aperto dos altos preços das commodities, o pagamento de dívidas e os baixos salários, que sufocam a classe média americana. No momento, o risco de crédito soberano na Europa é pior do que o dos EUA.


Isso está ajudando a empurrar a rentabilidade das obrigações do Tesouro dos EUA para baixo.

CI: Qual a profundidade possível de uma correção no preço do ouro?
EJ: Podemos ver uma correção de até 20% nos próximos 12 meses, mas fico relutante em dizer isso porque, ao contrário do aviso em março de 2008, o motor desta vez não é tão claro, nem tão certo. Francamente, é baseado em pouco mais do que intuição.

CI: Algo incomoda você?
EJ: Os bancos centrais odeiam ouro a preços elevados. Faz com que pareçam incompetentes. Num mundo perfeito, na visão dos banqueiros centrais, os preços do ouro deveriam ter caído de USD 35 para USD 7,50 após 1971, quando o ouro foi desmonetizado. Mas o que aconteceu é que disparou para USD 850. Durante 16 anos, de 1987 a 2003, o sistema funcionou muito bem, mas mesmo que os bancos centrais não estejam subordinados a governos nacionais, devem certamente prestar contas a eles. A Guerra do Iraque começou a dissolver essa relação estreita. Quando os EUA levaram o sistema financeiro global à falência em 2008, foi a gota d'água para muitos líderes mundiais.

Neste momento, existem numerosos estopins potenciais para a próxima grande correção nos preços do ouro e das commodities. Primeiro, podem forçar os EUA a interromper sua desvalorização da moeda – esse é um deles. A implementação de fato de austeridade nos EUA é outra. Para mim, a probabilidade de isso ocorrer é de quase zero. A austeridade, como observei no início do ano, é uma promessa de campanha para você se eleger. Nenhum político quer cortes de gastos significativos durante o seu mandato, se for possível evitar tal coisa. Outra possibilidade é a percepção de que a guerra cambial que começou em 2001, mas só foi chamada assim publicamente este ano - pelo Brasil - pode estar chegando ao fim. Não é o caso, mas a correção do preço do ouro, imediatamente antes e durante o G20, provavelmente reflete a especulação e vazamentos de informação que poderiam ser tomados como indícios de que um novo sistema monetário está próximo. O ouro disparou antes da reunião com as notícias da discórdia e pode estar passando por uma correção com rumores sobre cooperação entre países, especialmente o que parece ser concessões pelos EUA no sentido de interromper o processo de levar seus parceiros comerciais à pobreza. Os fundos estão negociando com base em boatos. O ouro é um barômetro da discórdia entre bancos centrais. Dado que o G20 terminou sem qualquer resolução para os conflitos do comércio e da moeda, se os preços do ouro subirem na segunda-feira, teremos então a nossa resposta.

CI: O que você acha da declaração de Greenspan, feita no dia antes do início do G20? Ele disse que os EUA estavam seguindo "uma política de enfraquecimento da moeda".
EJ: Os comentários do Greenspan, que não é a minha pessoa favorita, foram seguidos pelos comentários não-autorizados de Volcker sobre a eficácia do QE2, afirmando o óbvio: que os EUA estão usando a desvalorização da moeda não só para aumentar as exportações, mas, como já advertimos há anos, para adiar a deflação da dívida ou escapar de uma armadilha de liquidez usando um truque infalível.

CI: Truque infalível?
EJ: Essa é uma frase que leitores atentos vão se lembrar, das minhas previsões do início de 2007: haveria desvalorização da moeda. Não se trata de aumentar as exportações, como a maioria dos comentaristas acreditam hoje. Não é sobre um tentative de empobrecer seu vizinho com uma moeda fraca para impulsionar as exportações. Trata-se de deflação da dívida. Os EUA estão em uma recessão de balanço. Se os EUA permitirem que o dólar se valorize, perde a principal fonte de sinais de inflação na economia, os preços da energia e das importações. Dá até para imaginar uma reunião com apresentações de PowerPoint. Há o representante dos EUA explicando os perigos da deflação nos EUA. Há o representante da China rebatendo que o gerenciamento da deflação da dívida por meio da depreciação da moeda funcionou para os EUA em 1933, mas não estamos em 1933. Os EUA são um país devedor, e são os credores dos EUA que agora correm perigo com a política dos EUA de deflação da dívida. A China está exigindo ser paga em dólares plenamente valorizados. Queremos uma RMB mais fraco? Podemos aumentar nossas taxas de juros. Mas isso vai destruir a nossa economia, dizem os EUA. E assim por diante. Não admira que não se chega a lugar nenhum. Se os EUA cedessem, uma subida do dólar iria colocar rapidamente os EUA de volta em recessão e deflação. Com um Congresso dividido, uma nova crise será necessária para criar um consenso para implementar novas medidas de estímulo fiscal. Nessa janela de oportunidade, todos os mercados, incluindo o ouro, podem sofrer os efeitos de uma corrida rumo à liquidez. Mas, de novo, isso é tudo especulação. Simplesmente não há nenhuma maneira de saber.

CI: A quanto à história da mídia de massa de que a China pode elevar os juros para combater a inflação e que isso deve derrubar o ouro?
EJ: Talvez. Mas é por isso que é um desperdício de tempo tentar entender os movimentos dos preços do ouro no curto prazo. Se, de fato, a China elevar as taxas e destruir sua economia em sua segunda tentativa de encolher sua bolha imobiliária, até que ponto o ouro vai cair antes que comecem novas medidas de reflação? USD 1.200? USD 1.000? E que efeito essas medidas vão ter? Vão empurrar o ouro para USD 2.000? USD 5.000?

CI: Algumas palavras finais sobre o ouro?
EJ: Nos últimos dez anos, o preço do ouro teve a ver com quem ganha e quem perde o próximo lance do Grande Jogo. Aceite a ambigüidade. Procure anomalias e contradições no enredo contado, em alto e bom som, pela maioria dos analistas.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Chris Martenson Entrevista Steve Keen – Parte 1



Postado por Marco Aurélio

Chris Martenson: Da sua casa na Austrália, você tem uma posição privilegiada para acompanhar a ascensão da economia asiática. Se/quando os EUA derem um default sobre suas obrigações de dívida (quer seja por meio da desvalorização da moeda, quer seja um default puro), que passos específicos você acredita que a China e o Japão seguirão para proteger seus interesses?

Steve Keen: A China já está fazendo isso – lançou um programa deliberado de industrialização por meio da relocalização da produção de empresas multinacionais ocidentais da América (e de outros países também), e, ao contrário de grande parte do Terceiro Mundo, exigiu que essas empresas estrangeiras fechassem com parceiros locais e transferissem grande parte do capital, ao longo do tempo, a cidadãos chineses. Então, eles ganharam a Guerra da Industrialização ao longo das três últimas décadas, enquanto o Ocidente perdeu. Essa industrialização foi essencialmente dirigida para as vendas de exportação, financiadas por dívida; agora que as vendas estão secando, a China está se agarrando ao capital e à experiência que acumulou, e redirecionando a produção tão rapidamente quanto possível para a demanda doméstica.

Eles também estão saindo do dólar, abandonando títulos dos EUA e entrando em commodities. Tentam comprar diretamente recursos a nível mundial, usando o poder de compra do dólar, que acumularam por meio de seus excedentes comerciais. Então, no momento em que chegar o momento do default - ou, mais provavelmente, antes da desvalorização do dólar se tornar extrema -, terão transformado seus ativos monetários em ativos reais.

O Japão provavelmente será muito menos determinado em suas ações. É provável que se agarre aos títulos do governo americano, mesmo enquanto o dólar depreciar. Mas a liquidação de participações privadas de ativos financeiros dos EUA deve ampliar a tendência de queda do dólar.

Chris Martenson: Qual a sua opinião sobre o Pico do Petróleo (Peak Oil)? Especificamente, quando você prevê que o mercado vai reconhecer o seu significado? Qual será seu impacto sobre o crescimento econômico das nações em desenvolvimento?

Steve Keen: Considero o Pico do Petróleo e o aquecimento global desafios muito maiores para a humanidade do que a crise financeira, a qual chamo, às vezes, de "Pico do Endividamento" (Peak Debt). Fico espantado com o fato de que o conhecimento popular sobre o Pico do Petróleo é ainda tão limitado, quando as provas são bastante convincentes e os conceitos básicos bastante simples. O fato de que os EUA se apaixonaram completamente com caminhonetes e carros grandes durante o boom do subprime é apenas um outro indicador de como falta visão à espécie humana, apesar da nossa inteligência incrível.

O mercado financeiro provavelmente vai reagir ao Pico do Petróleo cinco ou dez anos depois de termos passado o pico, e o mercado físico – os meios de transporte que continuamos a comprar, a forma como geramos energia – demora mais de 30 anos para reagir. Deveríamos ter desenvolvido sistemas de transporte como a grade de levitação magnética SkyTran há uma década ou mais.

Breve Um Aumento de Quase 30% no Preço de Produtos de Algodão e Confecções Chinesas à Beira da Falência Testarão a Teoria da "Deflação"


Submetido por Tyler Durden
Postado por Marco Aurélio

A pergunta da dia é se o Wal-Mart conseguirá absorver um aumento de preços de 30% em produtos de algodão. Segundo reportagem da Bloomberg, logo terá que fazê-lo. Gap Inc., JC Penney Co. e outros varejistas dos EUA poderão ter que pagar fornecedores chineses até 30% a mais por roupas adquiridas, à medida que a forte alta dos preços do algodão aumentarem seus custos. ]

Diz a Bloomberg: "Tornou-se um pouco assustador ter que lidar com os fornecedores de algodão", afirma Vicky Wu, gerente de vendas da Suzhou Unitedtex Enterprise Ltd., um fabricante de roupas de capital fechado localizado na província de Jiangsu, que tem entre seus clientes a Gap e JC Penney.

Isso não é um exagero – num relatório da 13D.com publicado na semana passada, Kiril Sokoloff, cuja especialidade é a China, observou que, "Abrimos uma posição em algodão perto de USD 0,99, porque achávamos que os fundamentos ainda eram muito bons. Liquidamos toda essa posição em 26 de outubro a cerca de USD 1,29, porque muitos fabricantes chineses de roupas estavam indo à falência e o governo chinês começou a reprimir os especuladores e está investigando o tamanho das posições em algodão".

Observe o uso friamente calculado da palavra "falência", do sempre gentil Sokoloff – o que vem acontecendo com o preço do algodão está desencadeando uma mudança tectônica no varejo de baixa margem, e muitas empresas tradicionalmente seguras e estáveis em breve serão obrigadas a tentar passar os aumentos - ou quebrar, especialmente quando as legiões de lojistas de baixo custo desparacer de uma hora para a outra

O modelo Bernanke de exportação de inflação está prestes a se revelar um tiro pela culatra, com consequências de tamanho colossal. Com o mar de liquidez criado por Bernanke, o qual está em vias de levar o mundo à hiperinflação, o melhor resultado possível seria apenas um colapso total de margens. 

Se você acha que o sempre-irrelevante Dick Bove odeia o Bernanke agora, espere até ouvir as conversas nos jantares das casas de classe média no próximo Natal...